Diante do aumento dos golpes financeiros no Brasil, uma pergunta tem se tornado cada vez mais urgente: como os golpistas conseguem meus dados? A resposta não está apenas em grandes vazamentos ou invasões hackers. Hoje, os dados pessoais circulam em plataformas clandestinas, ferramentas comerciais e até nas redes sociais, de forma silenciosa — e legal ou ilegalmente acessível.
A facilidade com que criminosos acessam informações sensíveis sobre suas vítimas tem alimentado uma nova geração de fraudes altamente convincentes. O que antes exigia habilidade técnica hoje depende, muitas vezes, apenas de dinheiro e conexões no mercado cinza da informação.
Conteúdo
- 1 Sistemas de consulta de dados estão em circulação na internet
- 2 A engenharia social começa no comportamento digital — e termina na manipulação emocional
- 3 Os golpistas sabem quando agir — e o que dizer
- 4 Quando o dado é público, a fraude parece legítima
- 5 Além das redes: golpes alimentados por vazamentos e relacionamento humano
- 6 Os bancos e a responsabilidade no ecossistema da fraude
- 7 O problema não é só o acesso aos dados — é o poder que se dá a eles
Sistemas de consulta de dados estão em circulação na internet

Uma simples busca por termos como “consulta de dados CPF” ou “informações bancárias” já revela a existência de plataformas ilegais ou sem controle efetivo, acessadas por criminosos que buscam informações detalhadas sobre cidadãos comuns. Entre os nomes que circulam com frequência estão:
- SrWatson
- Mind7
- KingPainel
- E centenas de outras ferramentas de consulta e rastreamento de dados.
Algumas dessas plataformas são vendidas ou alugadas por criminosos em grupos fechados, enquanto outras são disfarçadas de serviços de “inteligência comercial”. O fato é que qualquer pessoa disposta a pagar ou atuar de forma fraudulenta pode obter dados sensíveis com facilidade assustadora.
Há sistemas que mostram desde endereços residenciais e telefones atuais, até histórico de empregos, veículos em nome da pessoa, e até vacinas registradas. Quando um golpista entra em contato com uma vítima já sabendo detalhes reais sobre sua vida, ele cria o que os especialistas chamam de ambiente de verossimilhança — a ilusão de legitimidade.
A atuação de criminosos digitais não depende apenas de acesso técnico a bases de dados. Uma das ferramentas mais perigosas à disposição dos golpistas é a engenharia social — o conjunto de estratégias usadas para manipular psicologicamente uma pessoa a fim de obter informações, confiança e vantagens financeiras.
Ao contrário do que muitos imaginam, a engenharia social não exige nenhum conhecimento em tecnologia. O que o golpista precisa é de habilidade em observação, empatia simulada e construção de narrativa convincente. A base dessas narrativas, na maioria dos casos, está disponível de forma gratuita nas redes sociais e na própria exposição digital voluntária das vítimas.
O perfil da vítima é montado a partir do que ela mesma publica
Através de perfis abertos no Instagram, Facebook, LinkedIn ou TikTok, o criminoso coleta detalhes como:
- Local onde a pessoa trabalha ou estudou;
- Estilo de vida, classe econômica, padrão de consumo;
- Rede de contatos (amigos, familiares, colegas);
- Nome de pessoas próximas, filhos e animais de estimação;
- Lugares que frequenta, viagens recentes e datas comemorativas;
- Frases usadas com frequência — que podem servir como pistas para senhas.
Essas informações permitem a montagem de um perfil psicológico e comportamental da vítima, que será usado como base para a abordagem. Se a pessoa se apresenta como alguém que valoriza segurança e controle, o discurso será técnico e cheio de termos “bancários”. Se é alguém emocionalmente vulnerável, o criminoso pode explorar laços afetivos, como nos golpes do “falso parente” ou da “filha que precisa de ajuda urgente”.
Os golpistas sabem quando agir — e o que dizer
O aspecto mais perigoso da engenharia social é a sua adaptação ao perfil da vítima. Não se trata apenas de repetir dados corretos — mas de falar no tom certo, no momento exato, com a autoridade que a vítima reconhece. A linguagem é cuidadosamente construída para simular urgência (“se não resolvermos agora, o prejuízo será maior”), autoridade técnica (“somos do setor de prevenção de fraudes”) ou empatia emocional (“estamos tentando proteger seu dinheiro”).
Além disso, os criminosos costumam agir em horários estratégicos, como na hora do almoço, no final do expediente ou em domingos e feriados — momentos em que as vítimas estão mais distraídas, longe do gerente verdadeiro ou sem tempo para refletir com calma.
Quando o dado é público, a fraude parece legítima
Quando um golpista consegue repetir informações que só o banco ou um serviço autorizado deveria saber — como últimos dígitos do cartão, agência bancária, valor do limite ou endereço completo — a vítima automaticamente atribui legitimidade à ligação, à mensagem ou ao e-mail. É nesse ponto que ela baixa a guarda e completa o que falta: senhas, códigos temporários, autorizações de acesso remoto, reconhecimento facial, entre outros.
O problema é que esses dados estão muitas vezes disponíveis em sistemas de consulta, ou foram obtidos em vazamentos massivos ao longo dos anos. A engenharia social apenas organiza esse material de forma a parecer institucional, segura e necessária.
Além das redes: golpes alimentados por vazamentos e relacionamento humano
Há casos em que o criminoso não depende apenas de redes sociais: ele observa a pessoa no ambiente de trabalho, simula ligações entre empresas, entra em grupos de WhatsApp públicos ou faz ligações sucessivas fingindo ser de órgãos oficiais. Em empresas, é comum que criminosos se passem por fornecedores, operadoras de telefonia, prestadores de serviço ou até por colegas da área de TI.
O objetivo, sempre, é o mesmo: construir confiança suficiente para que a vítima forneça voluntariamente dados que completam o quebra-cabeça da fraude.
Os bancos e a responsabilidade no ecossistema da fraude
Se por um lado os criminosos evoluíram, por outro as instituições bancárias continuam falhando nos fundamentos da proteção ao consumidor. Há três pontos críticos frequentemente ignorados:
- Vazamento de dados: Muitos dados que aparecem em sistemas paralelos ou são usados em golpes partiram, direta ou indiretamente, de falhas em instituições financeiras ou seus fornecedores de tecnologia.
- Abertura de contas com documentos falsos: Bancos digitais e fintechs têm facilitado, mesmo que involuntariamente, a criação de contas em nome de terceiros, sem mecanismos eficazes de verificação documental ou facial.
- Falta de monitoramento de comportamento atípico: Mesmo diante de movimentações flagrantemente suspeitas — como a contratação de empréstimos seguida de dezenas de transações até o esvaziamento da conta — não há bloqueios automáticos, nem alertas eficazes.
Como explica a especialista em resolver fraude bancária, Dra. Elisângela B. Taborda, do site elisangelabtaborda.adv.br, os bancos não apenas devem proteger o patrimônio do cliente, mas também reagir a indícios objetivos de fraude com base em padrões comportamentais.
“Se um cliente faz 40 transferências em sequência após receber um empréstimo — e nunca fez esse tipo de operação antes — é obrigação da instituição monitorar e intervir. A omissão nesses casos pode gerar responsabilização”, afirma.
O problema não é só o acesso aos dados — é o poder que se dá a eles
No fim das contas, os golpistas constroem narrativas usando pedaços da verdade. E o que deveria ser apenas uma base de dados se transforma em instrumento de persuasão emocional e exploração financeira.
O problema não está só nos dados disponíveis, mas na forma como as pessoas reagem a eles: ao ouvir seu CPF, sua cidade natal ou seu limite de cartão, muitos baixam a guarda e acreditam em promessas irreais — de altos lucros, segurança reforçada, ou resoluções instantâneas. É aí que fornecem ainda mais informações, digitam senhas, autorizam empréstimos ou transferem suas economias.
Para vítimas de golpe, ou mesmo quem deseja entender como reagir a tentativas de fraude, consultar um profissional especializado pode ser a diferença entre prejuízo e reparação.
A Dra. Elisângela B. Taborda, advogada com atuação em litígios contra bancos e fraudes digitais, reúne experiência em bloqueios judiciais de urgência, responsabilização por falhas na segurança e estratégias para contestar operações realizadas mediante manipulação ou engenharia social.
Saiba mais em: 🔗 elisangelabtaborda.adv.br